Aconteceu bem longe de mim, na Inglaterra, mas não consigo parar de pensar na matéria recém-publicada da professora primária Ellie Hart, que, ao fazer uma faxina em casa, jogou fora um pen drive. E só descobriu depois que o marido, Tom, guardava lá as chaves que davam acesso a 3 milhões de libras em bitcoin – o equivalente a R$ 22,5 milhões.
É provável que você esteja xingando Ellie neste momento. Profissional que sou em perder coisas – meu irmão brinca que a campanha do agasalho de Brasília nunca mais foi a mesma desde que me mudei de lá – eu, na verdade, gostaria de abraçá-la.
Confesso que eu mesma já perdi as chaves de um investimento em criptoativos, em uma de minhas várias mudanças de casa. Tudo bem que faz tempo e era um percentual muito pequeno do meu patrimônio, mas, sim, era dinheiro.
Ao contrário do que muita gente pensa, não é a volatilidade, mas sim a custódia (a guarda) o maior risco ao investir em criptoativos
A experiência própria já tinha me ensinado isso, mas esse foi um dos aprendizados reforçados ao longo do mergulho que eu e minha equipe fizemos recentemente no universo dos fundos de criptoativos.
Não me orgulho disso – fim de semana pra mim é sagrado – mas dediquei boa parte do último a fechar um relatório de recomendação com os resultados de uma longa jornada de análise dos dados e visita às gestoras do segmento.
Aprendemos muito ao longo do processo e, por isso, hoje quero dividir com você 12 coisas que é preciso saber antes de investir em fundos de criptoativos (muitas delas valem também pra aplicação direta):
1. Você não deveria ter mais de 3% do seu patrimônio em criptoativos
Não sou só eu que defendo essa ideia, ouvimos isso dos maiores investidores profissionais do mercado brasileiro de criptoativos – gente que ganha receita quando você investe, ou seja, na certa falaria se considerasse uma boa ideia ter mais.
2. Invista o que topa perder: o potencial de retorno é alto, mas a volatilidade é brutal
Criptoativos são, de longe, a classe de ativos mais volátil que já analisamos. Pra você ter uma ideia, a volatilidade dos fundos que investem no segmento chega a ultrapassar os 60% – em um período em que a do Ibovespa, principal índice da bolsa brasileira, ficou perto de 30%.
Uma medida de risco que consideramos ao fazer a análise quantitativa é o “máximo drawdown”, que de forma simplificada mede o percentual máximo que um fundo já caiu antes de iniciar uma trajetória de alta. No mercado de criptoativos, ele chega a se aproximar dos 80%.
3. O risco maior está na custódia, não na volatilidade
Os códigos que dão acesso às carteiras virtuais precisam ser muito bem guardados (vide o caso da coitada da Ellie).
Quem investe em criptoativos diretamente precisa transferi-las para uma carteira digital – um aplicativo no celular – ou uma carteira física, um dispositivo similar a um pen drive. E, se o dispositivo ou o código for perdido (sei bem!), você perde acesso aos ativos – isso reforça o ponto 1 dessa lista!
4. Dito isso, você deveria pensar em adicionar criptoativos ao seu portfólio
Como uma frente tecnológica nova, criptoativos têm alto potencial de retorno e baixa correlação com ativos tradicionais. E a classe está cada vez menos à margem: basta dizer que, nos EUA, o presidente Donald Trump anunciou recentemente a criação de uma reserva estratégica de cripto.
5. Investir em fundos têm vantagens e desvantagens
Você abre mão da tese “fora do sistema”, mas ganha em execução, custódia e seleção profissional. Pode parecer contraditório, mas há conforto em acessar o mundo cripto com apoio de estruturas robustas.
É similar ao investimento em ouro: tem gente que só considera válido expor-se por meio de barras do metal guardadas em casa. Já eu, prefiro participar da valorização por meio de um fundo barato.
6. Fundos são uma ótima opção pela custódia profissional
Quem investe por meio de um fundo delega também a guarda. Nesse caso, ela fica sob responsabilidade de um custodiante profissional – ou mais de um, já que é comum os bons gestores usarem mais de um prestador de serviço para aumentar a segurança.
As chaves detidas pelos fundos são guardadas em esquemas de segurança similares ao de barras de ouro ou dinheiro físico, em bunkers.
Instituições financeiras consolidadas entraram neste mercado recentemente, com a promessa de múltiplas camadas de segurança. É o caso da Fidelity, gestora americana tradicional de grande porte que criou um braço de custódia, o Fidelity Digital Assets – que presta serviço para alguns dos fundos brasileiros.
Mesmo com todo esse cuidado, o risco de ataques hackers ou de perdas por falha de governança é um ponto de atenção nesse universo. E isso reforça, mais uma vez, o ponto 1!
7. A indústria brasileira de fundos cripto avançou muito nos últimos anos
A Instrução CVM 175, que rege os fundos de investimento no Brasil, cita pela primeira vez os criptoativos como classe financeira. Hoje, fundos acessíveis ao público em geral podem investir até 100% na classe se fazem isso por meio de ETFs, veículos listados na Bolsa local.
8. Evite a exposição diluída
Apesar da possibilidade trazida pelos ETFs, ainda é grande a oferta de fundos de criptoativos que investem menos de 50% do patrimônio na classe, com custos altos. Melhor evitá-los.
9. A qualidade da gestora importa: custódia, operação, informação
Selecionar quem está por trás do fundo é parte crucial: é preciso avaliar histórico, estrutura, método de seleção de ativos, execução (um mesmo criptoativo tem preços diferentes dependendo da Bolsa em que você compra) e governança — incluindo a escolha do custodiante profissional que vai guardar suas chaves.
10. Fique de olho no benchmark para cobrança de performance
Alguns fundos ativos ainda cobram taxa de performance sobre CDI – então, se os criptoativos sobem mais do que o referencial da renda fixa, eles levam 20% desse ganho. Esse não é um referencial adequado segundo nossos estudos, dada a diferença absurda de risco e potencial de retorno em relação ao referencial das aplicações conservadoras.
O ideal é que os fundos usem referenciais do mercado cripto – a boa notícia é que algumas casas já estão se mexendo para isso, inclusive com ajuda do nosso ativismo.
11. Rebalanceamento é altamente recomendável
Fundos cripto sobem muito — e também caem muito. Se você não rebalancear, essa frente pode virar protagonista do seu portfólio ou pó. Os próprios profissionais do segmento recomendam: ajuste o tamanho periodicamente, por mais doloroso que seja comprar na baixa e vender na alta.
12. Criptoativos são fascinantes: entre ciente disso
Tecnologia, transformação… esse universo estimula nossos sentimentos mais profundos, tanto de medo quanto de ganância. Daí o risco de comprar demais na euforia e vender tudo no pânico. Só entre se for capaz de domar esses instintos ou vai perder dinheiro com certeza.
O tema é tão fascinante que virou 30 páginas de relatório. Se você é assinante da SuperCarteira, já está com acesso a ele e aos fundos cripto aprovados em nossa análise no seu app – lembrando que somos independentes, as recomendações são nossa única fonte de receita.
Começamos com uma amostra de 75 fundos, reduzida por meio de filtros quantitativos a 18. Depois de ficar cara a cara com as equipes profissionais que tocam as estratégias, encontramos uma vencedora, que foi a recomendada.
Se você ainda não é SuperCarteira e quiser acessar as recomendações de fundos, em breve vamos avisar da próxima abertura, que costuma acontecer somente três vezes no ano. Se quiser que eu te avise em primeira mão, é só clicar aqui.
Um abraço,
Luciana Seabra.