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Dinheiro e amor sincero

“Aos setenta, você é apenas uma criança; aos oitenta, você é apenas um jovem; e aos noventa, se os ancestrais o convidarem para o céu, peça a eles que esperem até você completar cem anos… e só então talvez você considere”.
Registro em pedra em vila de Okinawa

Faz alguns dias que estou obcecada por um arquipélago japonês. Seu nome é Okinawa. E não é por conta de suas ilhas salpicadas de palmeiras e cercadas por mar turquesa, paraíso dos mergulhadores. E nem devido ao triste fato de ter sido palco de uma das batalhas mais sangrentas da Segunda Guerra Mundial.

É graças aos chamados moais

A primeira vez que ouvi sobre os moais foi na série do Netflix “Como viver até os 100: Os Segredos das Zonas Azuis”, que inclusive recomendo. Nela, o escritor Dan Buettner viaja pelo mundo visitando comunidades conhecidas por proporcionar vidas longas e felizes.

O primeiro episódio é em Okinawa, reconhecida pela sua numerosa população com mais de cem anos – e, o mais incrível, pela sua vitalidade a essa altura da vida.

Dan apresenta os moais como peça fundamental para a longevidade dos habitantes do arquipélago.

E o que são eles? São grupos em que os integrantes se comprometem a se encontrar com regularidade e apoiar uns aos outros financeiramente e emocionalmente.

Uma das cenas do documentário em especial me marcou. Ela mostra idosas de Okinawa sentadas em torno de uma mesa, tomando chá. Tomi Ito, uma senhora de 93 anos, conta que, depois de se aposentar, tudo que fazia era ir do quintal pra casa e vice-versa. E isso se tornou insuportavelmente monótono.

Ela começou a estudar os moais – que define como grupos sociais comprometidos que nasceram como uma forma de angariar fundos e ajudar uns aos outros em tempos difíceis.

Tomi passou então a visitar outras casas da região propondo a criação de um moai em que cada integrante contribuiria com mil ienes, o equivalente hoje a R$ 39,70.

Minha mente associou imediatamente a figura do moai com a do FGC, Fundo Garantidor de Crédito, em que os banqueiros formam um fundo pra quitar os empréstimos de um deles caso passe por dificuldades – fortalecendo o sistema financeiro. Nesse caso, entretanto, tratam-se de pessoas físicas fomentando laços sociais. Bonito, né?

Tomi dá então um exemplo de um amigo que caiu quando foi ao banheiro à noite e foi internado – algo infelizmente muito comum entre idosos. E o moai juntou dinheiro para ajudá-lo.

A mágica do moai vai muito além do dinheiro. Tomi conta que, para além do arranjo financeiro, o grupo se encontra para tomar chá, conversar, cantar e dançar. E a própria criadora da comunidade diz no documentário que vê aí o segredo da longevidade.

Pesquisas com comunidades que conservam a vitalidade em idades avançadas apontam para esse fenômeno: pessoas bem conectadas com outras são mais enérgicas e positivas do que as que vivem isoladas.

Lynda Gratton chama, no livro “The 100-Year Life” (A Vida de 100 Anos), redes formadas por amigos próximos que dividem interesses comuns de Comunidade Regenerativa.

Os autores citam em especial uma pesquisa de Harvard em que 268 estudantes foram rastreados até completarem 65 anos.

O estudo concluiu que ativos tangíveis são importantes: “ter pouco dinheiro, ou menos do que seus pares, é uma fonte de insatisfação”.

Outro fator apareceu, entretanto, como previsor chave da satisfação com a vida: os relacionamentos fortes e profundos que essas pessoas construíram ao longo da vida.

Nas palavras de George Vaillant, um dos pesquisadores citados no livro, existem dois pilares para a felicidade: um é o amor, outro é encontrar uma forma de lidar com a vida que não afaste o amor. E completa: “Ganhar mais dinheiro faz você mais feliz, mas o amor faz você feliz”.

O livro lista três ativos que deveriam ser fomentados por cada um de nós para uma vida longa feliz:

  1. Ativos produtivos, como habilidades, conhecimento e relações profissionais, que tendem a potencializar a renda;
  2. Ativos vitais, referentes à saúde física e mental, que incluem além de exercícios físicos e boa alimentação, amizades e relações familiares positivas;
  3. Ativos transformacionais, que envolvem a abertura para novas experiências e capacidade de lidar bem com mudanças, já que elas tendem a ser mais comuns em vidas de 100 anos

Isso tudo me encanta porque ainda existem fortes tabus em torno de colocar amor, dinheiro e felicidade na mesma frase. E o moai é um grande símbolo disso.

Confesso que estou fascinada com a ideia de fazer as malas um dia e ir ver tudo isso de perto – nada que 35 horas de viagem não resolvam, diz o ChatGPT.

Para fechar com música, isso tudo também combina com o livro de cabeceira que me acompanhou no último feriado: a biografia de Tim Maia, muito bem escrita por Nelson Motta e infelizmente esgotada nas livrarias.

Estou certa de que você já cantou alto com Tim que, quando a gente ama, não pensa em dinheiro e que, de jeito maneira, não quer dinheiro, só quer amor sincero.

É isso mesmo que você espera? A história de Tim mostra que ele próprio ansiava sim era pela combinação dos dois – ainda que fosse boêmio demais para consegui-lo o tempo todo.

Se chegasse a um palco para cantar suas baladas românticas e o pagamento adiantado combinado não tivesse sido feito, soltava o código “Estratégia”. Era o sinal para sua equipe pegar os instrumentos e debandar imediatamente.

Conta-se que algumas vezes ele gritava também ao público: “O contratante não pagou. Cada um que lute com ele aí! Boa noite!”. E partia.

Do moai ao Tim Maia, passando pelas pesquisas de bem-estar de que tanto me fascinam, a verdade é que a felicidade parece encontrar um bom fermento nessa combinação: patrimônio financeiro e laços sociais robustos.

Tenho gostado bastante de estudar a longevidade, seja por curiosidade pessoal, seja por ter perdido minha avó neste ano, seja porque cada vez mais meus clientes pedem pra falar sobre o tema – que é mais destrinchado fora do país, dado que a maior parte da população brasileira ainda não é assim tão longeva.

Há algo em comum em tudo que caiu nas minhas mãos até aqui.

Se queremos ter vidas longas e felizes, parece que a verdadeira estratégia está nesta combinação: dinheiro e amor sincero. Trabalhemos, portanto, para encontrá-la.

Um abraço,
Luciana Seabra.

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