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Minha dieta favorita agora é a do amarelo. Quando eu faço supermercado, só entram no carrinho os alimentos que têm essa cor: banana, milho, cheddar, polenta, pudim, quindim, Cheetos… Carne não pode, não é amarela. Talvez uma moqueca, com bastante dendê e cúrcuma.
Soa absurdo pra você? O meu ouvido padece do mesmo sentimento quando você diz pra mim que sua forma favorita de investir é em ativos que pagam renda: no seu carrinho, só entram ações boas pagadoras de dividendos, fundos imobiliários, fundos de debêntures de infraestrutura e Fiagros.
Acredite em mim: o critério “só invisto no que cospe renda” não é muito diferente de “só como o que é amarelo“.
Não me interprete mal. Meu portfólio tem hoje todos esses tipos de investimento listados acima, comprados por meio de gestores profissionais, assim como minha dieta inclui várias comidas amarelas – essa é minha cor favorita, a propósito. Mas não somente isso!
Estou ciente de que o pagamento ou não de renda é um critério tão absurdo pra guiar minha composição de portfólio quanto a cor é para a minha dieta.
Esse tema é muito importante porque, por algum motivo misterioso, algumas pessoas sentem um prazer enorme em ver dinheiro pingando em suas contas – ainda que não tenham certeza se vão usá-lo no curto prazo. Eu costumo chamar esse fenômeno de “o fetiche da renda”.
Os estudos sobre construção de patrimônio apontam para algumas questões importantes a se ter em conta, de forma conjunta, como: definição de uma alocação estrutural, diversificação, horizonte correto, economia de impostos, baixa correlação entre os ativos, controle de risco… e você acaba ignorando vários deles ao colocar o pagamento de renda em primeiro lugar.
Falemos de diversificação. Ao focar somente em instrumentos financeiros que pagam renda você abre mão dela. Isso porque hoje eles estão concentrados basicamente nos setores de infraestrutura, imóveis e agronegócio.
Quando você foca sua carteira de ações em empresas boas pagadoras de dividendos, abre mão do que a maior referência em alocação do mundo, David Swensen, da Universidade Yale, chamava de diversificação de verdade.
Isso porque as companhias que pagam mais proventos aos acionistas também costumam ser de segmentos específicos, menos afeitas a novos investimentos. Estão nesse grupo em geral os grandes bancos, as concessionárias de energia elétrica, rodovias.
Legal obviamente tê-las na carteira – e eu tenho também, via gestores profissionais.
Focar somente nas ações boas pagadoras de dividendos, entretanto, tende a deixar você fora das empresas mais inovadoras e de mais forte crescimento da Bolsa, como as de tecnologia. Isso porque a empresa pode evitar distribuir dividendos demais porque prefere usar os recursos para investir na operação e trazer mais valorização à ação lá na frente.
É bom lembrar que o crescimento do seu patrimônio investido vem por dois caminhos: valorização dos ativos e, para uma parte deles, pagamento de proventos.
Talvez o fetiche da renda se misture um pouco com o fetiche da isenção – dado que muitos dos proventos são isentos de imposto de renda. Ótimo, pagar menos imposto faz parte de uma estratégia de construção de patrimônio de longo prazo. Jamais, porém, deve ser único critério. Ou seria mais fácil irmos todos de mãos dadas perder dinheiro juntos na poupança.
E daí vem mais um risco que o fetiche da renda impõe sobre a carteira: o regulatório. Todas as vezes em que crescem os rumores quanto à maior tributação sobre a renda de investimentos – e infelizmente isso vai e vem – esses investimentos despencam juntos na Bolsa.
O fetiche da renda ganha contornos surreais quando é usado como único critério por quem ainda está longe de se aposentar. Isso porque o dinheiro pingando na conta não tem sequer fins práticos. Cada dia em conta corrente é um dia a menos na poderosa máquina do juro composto.
Muito melhor seria se o dinheiro fosse reinvestido automaticamente. E até mesmo gestores de fundos que pagam renda concordam comigo aqui. Já ouvi de vários deles que a fixação de investidores pela renda – acima de qualquer racionalidade – faz com que a gestora precise se preocupar com esse fluxo mesmo quando essa não é a melhor estratégia para quem investe.
Os fundos de debêntures de infraestrutura, por exemplo, precisam muitas vezes deixar dinheiro em caixa pra garantir um fluxo mensal para cotistas ansiosos por renda – quando eu preferia que reinvestissem esses recursos em novas oportunidades, ou só pagassem renda nos meses em que isso os ativos que carregam o fizessem, o que em geral é semestral.
“Ah, Lu, mas eu estou contando com esse dinheiro pra complementar minha renda”. É só fazer um resgate parcial do dinheiro que você vai precisar, no ritmo que você precisar.
Mesmo que você já tenha se aposentado e conte com os investimentos para sua renda integral, focar no pinga-pinga dos proventos é uma ideia ruim – tanto por todos os motivos elencados acima quanto pelo ritmo de uso do dinheiro.
Existe método para usufruir de um patrimônio investido, quando for esse seu plano. Uma regra de bolso, muito famosa nos Estados Unidos, é usar 4% do patrimônio acumulado no primeiro ano de aposentadoria. E, nos seguintes, reajustar esse percentual pela inflação.
Outro método, ainda mais apropriado, é o do Guardrail, que coloca um limite inferior e um superior para o percentual do seu patrimônio que você pode gastar em um ano, mas deixa com que ele flutue em função do retorno. Não é o caso de mergulhar nele aqui, mas vale conhecê-lo se você está na fase de usufruto do dinheiro.
O importante é que todos esses métodos têm o objetivo de fazer com que o patrimônio dure até o fim da vida, ao mesmo tempo em que evitam oscilações desconfortáveis na renda de curto prazo.
Afinal, seu aluguel e seu Netflix não vão oscilar de preço em função dos proventos pagos por seu portfólio.
O método “contar com o que pinga na conta”, posso te garantir, não está dentre os propostos pelos estudos da fase de usufruto.
Aos meus olhos – de planejadora financeira aficcionada pelos estudos de construção de portfólio e de uso do dinheiro acumulado – o fetiche da renda soa tão estranho quanto deixar uma torneira pingando o dia todo, em vez de abri-la só quando der sede.
Um abraço,
Luciana Seabra.
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