Estudo da MZ revela baixo uso do FRE como ferramenta de posicionamento e transparência, mesmo em temas centrais como ESG e governança
Quando o regulatório não vira reputação
O Formulário de Referência (FRE) é, talvez, o documento mais completo e acessível que uma companhia aberta oferece ao mercado. Exigido anualmente pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM), ele reúne informações sobre estratégia, riscos, estrutura de governança, remuneração e compromissos da companhia com temas sensíveis à sociedade.
Ainda assim, boa parte das empresas trata o FRE como uma tarefa burocrática. Ao preencher o formulário com respostas genéricas, pouco conectadas à realidade e à visão de futuro do negócio, essas companhias perdem uma oportunidade valiosa: a de construir reputação e confiança com base em dados públicos e verificáveis. Um erro estratégico em um mercado que cobra coerência e consistência.
ESG no papel, mas ainda distante da prática
O estudo FRE 2025, produzido pela MZ com apoio da B3, mostra que 73,4% das companhias afirmam adotar práticas ESG. No entanto, apenas 53,9% seguem recomendações reconhecidas como as da TCFD.
Em muitos casos, a divulgação ESG no formulário se limita a generalidades, sem metas claras, métricas ou integração à estratégia corporativa. Isso fragiliza a credibilidade das companhias e reduz a utilidade do documento para investidores que buscam dados objetivos para tomada de decisão.
ESG não pode ser apenas um capítulo no relatório de sustentabilidade, precisa ser um componente vivo da estratégia, refletido com clareza também no FRE. Quando isso não acontece, a empresa fala, mas não comunica.
Diversidade e renovação: onde os números ainda estagnam
A análise da composição das lideranças traz outro sinal de alerta. Apenas 13,4% das diretorias executivas são ocupadas por mulheres. E 84,7% dos executivos se declaram brancos. A média de idade da alta liderança é de 58,7 anos.
São dados que apontam para uma homogeneidade preocupante nas estruturas de decisão. Diversidade e inclusão não são apenas compromissos sociais, são fundamentos de inovação e desempenho.
Lideranças plurais enxergam riscos com mais sensibilidade, tomam decisões com mais equilíbrio e se conectam melhor com investidores e consumidores. Quando o FRE repete ano após ano esse retrato estático, o que se comunica é a resistência à mudança.
A ausência de projeções diz mais do que parece
Outro dado que chama atenção no estudo: apenas 24% das empresas divulgaram projeções estratégicas no FRE. Isso revela a dificuldade que muitas companhias ainda têm de comunicar com transparência suas expectativas, metas e ambições.
É compreensível que haja cautela, especialmente em um ambiente macroeconômico incerto. Mas não assumir compromissos ou não compartilhar direções de médio e longo prazo também comunica, e comunica hesitação.
Projeções são formas de alinhar expectativas com o mercado e sinalizar maturidade. Sem elas, o FRE deixa de ser uma ferramenta de posicionamento estratégico e se reduz a um inventário estático do passado.
O que podemos concluir
O Formulário de Referência pode, e deve, ser mais do que uma obrigação regulatória. Ele pode ser a peça central da comunicação institucional das companhias com seus stakeholders. Um documento que, se bem utilizado, reforça a transparência, projeta confiança e constrói valor. Mas, para isso, precisa ser tratado com mais intencionalidade.
O mercado não quer respostas genéricas. Quer coerência entre discurso e prática, clareza sobre riscos e ambição no olhar para o futuro. Empresas que entenderem isso sairão na frente. As que não entenderem continuarão ocupando espaço, mas não liderando conversa alguma.
Para ter acesso ao estudo completo sobre o Formulário de Referência 2025, acesse o LINK.
Cássio Rufino
CFO & COO
Cássio Rufino é CFO & COO da MZ, empresa líder em soluções para relações com investidores. Graduado em Administração de Empresas pelo Mackenzie, possui pós-graduação em Finanças Corporativas pelo Insper e MBA Executivo em Finanças pela mesma instituição. É especialista em comunicação financeira e criador do método dos 3Cs, que já ajudou dezenas de RIs a gerar mais valor e aumento de liquidez para suas companhias.
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