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Tingida na Lã

“Nos meus quase 50 anos de experiência em Wall Street, descobri que sei cada vez menos sobre o que o mercado de ações vai fazer, mas sei cada vez mais sobre o que os investidores deveriam fazer; e essa é uma mudança de atitude bastante vital”.

A frase acima é de Benjamin Graham, o pensador mais influente da história dos investimentos em ações – encontrei ela no livro “Big Mistakes”, de Michael Batnick, em que ele mergulha na história dos maiores erros de gente que fez muito dinheiro.

O megainvestidor da Bolsa Warren Buffett, do alto de sua fortuna de US$ 154 bilhões, costuma dizer que 85% do que ele sabe vem de Graham. Então acho que vale a pena ouvir um pouco do que esse homem tem a dizer.

Isso se torna ainda mais relevante em meio à volatilidade que acometeu os mercados desde que o presidente dos EUA, Donald Trump, anunciou um aumento relevante nas tarifas sobre produtos que o país compra do restante do mundo, desencadeando um temor de recessão.

O  principal conceito criado por Graham – que ouço, quase um século depois, ser repetido por investidores profissionais – é o da “margem de segurança“. 

O chamado “reitor de Wall Street” define tal expressão como “o desconto ao qual uma ação está sendo negociada abaixo do seu valor intrínseco mínimo“.

E o mais interessante, como destaca Batnick no livro, é que Graham não tinha a pretensão de saber exatamente qual era o valor real de uma empresa, por mais cálculos que fizesse. Pelo contrário, ele considerava que isso era impossível, mas também que não era um prerrequisito para o sucesso.

Ele diz assim: “É perfeitamente possível perceber, só de olhar, que uma mulher é velha o bastante para votar sem saber sua idade, ou que um homem está mais pesado do que deveria sem saber seu peso exato”.

No livro de Batnick, um trecho traduz bem esse espírito de Graham, quando analisou o caso de General Electric, que o mercado avaliava a US$ 1,87 bilhão em 1937 e a US 784 milhões somente um ano depois, ou seja, metade:

“Certamente nada havia acontecido em doze meses que justificasse a destruição de mais da metade do valor dessa poderosa empresa; nem os investidores ousaram afirmar que a queda nos lucros de 1937 para 1938 tinha qualquer significado permanente para o futuro da companhia. A General Electric era negociada a US$ 64,88 porque o público estava com uma mentalidade otimista e a US$ 27,13 porque as mesmas pessoas estavam pessimistas. Falar desses preços como representando “valores de investimento” ou “avaliação de investidores” é um atentado contra a língua ou contra o bom senso”. 

Graham também dizia que os preços flutuavam mais do que o valor porque humanos que definem os preços, enquanto são os negócios que definem o valor.

E é interessante perceber que ele dizia isso ainda antes do advento das finanças comportamentais, que deu, anos depois, o Nobel de Economia a um psicólogo, Daniel Kahneman.

Uma metáfora de Graham ajuda a entender como ele via a volatilidade. Ele sugere imaginar que você tem uma participação societária em um negócio privado – no meu caso, a Indê, por exemplo. E todos os dias um dos meus sócios, o “Mr Market” (ou Senhor Mercado), está disposto a fazer uma oferta por ela. Daí ele segue: 

“Às vezes, a ideia dele de valor parece plausível e justificada pelos acontecimentos do mercado e perspectivas que você conhece. Mas, muitas vezes, o Sr. Mercado deixa que seu entusiasmo ou seus medos tomem conta, e o valor que ele propõe parece, para você, pouco menos do que ridículo”. 

Quando pensamos em um negócio privado, o exemplo fica mais claro, dado que há claramente um valor intrínseco da empresa – que dificilmente muda brutalmente de um dia para o outro.

Mas e quando o mercado demora a perceber esse valor?

Em sua fase mais difícil, de 1929 a 1932, em que sua estratégia em ações chegou a cair 70%, Graham segurou firme, mostrando que acreditava em sua filosofia.

Ele chegou a escrever em um artigo para a Forbes dizendo que havia literalmente dezenas de empresas americanas que estavam sendo negociadas por menos do que o valor que tinham em sua conta no banco. 

E seguiu, como bem traduziu Batnick, como “uma voz da razão em meio a uma multidão de zumbis financeiramente deprimidos”:

“Já é hora – e passou da hora – de que os milhões de acionistas americanos parem de olhar apenas os informes diários de mercado por tempo suficiente para dar alguma atenção às empresas em si, das quais são proprietários, e que existem para seu benefício e prazer”.

Graham segurou firme e a recuperação de fato veio – a estratégia tocada por ele superou a média do mercado em quase 3 pontos percentuais ao ano ao longo de 20 anos. E ele continuou difundindo que comprar ativos com base na margem de segurança, ou seja, investir quando estão baratos, é a forma mais inteligente de atingir bons resultados.

Isso significa acreditar no valor intrínseco das empresas, aceitar que eventualmente o preço de mercado vai se encontrar com o valor do negócio.

Batnick reforça, entretanto, que sobreviver aos longos períodos em que o mercado separa preço de valor, tanto nas altas quanto nas quedas, pode ser mentalmente exaustivo, principalmente se você não for um investidor de valor “dyed-in-the-wool. A metáfora pode ser traduzida como “tingido na lã”, em referência a algo definitivo, enraizado, que não muda com facilidade – equivalente a dizer “investidor de valor puro-sangue”.

É claro que ter uma reserva de emergência bem feita, uma carteira diversificada e o horizonte correto para investimentos de ações é o caminho para tornar as turbulências menos exaustivas – já que uma certeza que temos é que elas existirão.

Seja como for, nada como voltar aos fundamentos em momentos de volatilidade. Eu sou uma investidora de valor tingida na lã. E você?

Um abraço,

Luciana Seabra.

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